Segundo dados do Ministério da Previdência Social, em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por questões de saúde mental, o maior número da última década.
Nesse cenário de adoecimento amplo, a saúde mental no trabalho vem ocupando um lugar central nas estratégias de gestão de pessoas e compliance corporativo.
Desde 2024, as empresas brasileiras contam com um novo fator de pressão (e também uma oportunidade) para investir nesse tema: a atualização da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Atualmente, a norma a incluir oficialmente os fatores de risco psicossociais entre os riscos ocupacionais que devem ser identificados, avaliados e gerenciados pelas organizações.
Na prática, isso significa que questões como estresse ocupacional, sobrecarga de trabalho, assédio e falta de apoio organizacional passam a fazer parte do escopo obrigatório de gestão de riscos das empresas.
Neste artigo, você vai entender:
- O que são as Normas Regulamentadoras;
- O que mudou na NR-01;
- O que são riscos psicossociais no trabalho;
- Como medir esses riscos;
- Como adequar sua empresa às novas exigências;
- Qual o prazo para adequação.
O que são Normas Regulamentadoras (NRs)?
As Normas Regulamentadoras (NRs) são um conjunto de diretrizes e procedimentos estabelecidos pelo MTE com o objetivo de garantir a saúde e a segurança dos trabalhadores nos ambientes de trabalho.
Essas normas definem obrigações legais para empregadores e estabelecem práticas de prevenção de acidentes, doenças ocupacionais e outros riscos relacionados ao trabalho.
Atualmente, o Brasil possui 38 Normas Regulamentadoras, cada uma dedicada a um aspecto específico da saúde e segurança ocupacional, desde condições gerais de trabalho até riscos químicos, biológicos, ergonômicos e organizacionais.
O cumprimento dessas normas é obrigatório para as empresas, e sua implementação contribui para a construção de uma cultura organizacional mais segura e responsável.
O que é a NR-01?
A NR-01 é a Norma Regulamentadora que estabelece as disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho no Brasil.
Ela define princípios, responsabilidades e diretrizes para a implementação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), instrumento que organiza a identificação, avaliação e controle dos riscos ocupacionais dentro das empresas.
O que mudou na NR-01?
Com a atualização recente da norma, os riscos psicossociais passaram a integrar oficialmente o escopo do gerenciamento de riscos, ampliando a visão tradicional de saúde ocupacional, que antes estava muito focada em riscos físicos, químicos ou ergonômicos.
Assim, foi dada maior ênfase à saúde mental no trabalho, refletindo a crescente preocupação com o impacto do ambiente organizacional no bem-estar psicológico dos trabalhadores.
A norma passa a incentivar que as empresas adotem políticas estruturadas de gestão da saúde mental, contemplando três pilares principais:
- Tratamento;
- Prevenção;
- Suporte psicológico aos trabalhadores.
Além disso, a atualização também reforça:
- A prevenção de assédio moral e organizacional;
- A participação ativa dos trabalhadores na identificação de riscos;
- A necessidade de análises específicas por área ou atividade.
Ou seja, a gestão da saúde mental passa a ser tratada como parte estruturante da gestão de riscos ocupacionais.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Os riscos psicossociais referem-se às interações entre:
- Organização do trabalho;
- Condições do ambiente laboral;
- Relações sociais no trabalho;
- Características individuais do trabalhador.
Esses fatores podem influenciar diretamente a saúde mental, o desempenho e a satisfação profissional.
Entre os principais exemplos de riscos psicossociais estão:
- Sobrecarga de trabalho: pressão por prazos curtos, excesso de tarefas ou jornadas prolongadas.
- Subutilização de competências: atividades repetitivas ou com pouco estímulo intelectual.
- Falta de autonomia: pouco controle sobre decisões relacionadas ao próprio trabalho.
- Conflitos de papéis ou valores: situações que colocam o trabalhador em dilemas éticos ou organizacionais.
- Falta de apoio social: ausência de suporte da liderança, colegas ou estrutura organizacional.
Quando não são gerenciados adequadamente, esses fatores podem levar a consequências como:
- Estresse crônico;
- Depressão;
- Ansiedade;
- Burnout;
- Queda de produtividade;
- Aumento do absenteísmo;
- Afastamentos por adoecimento mental.
Como medir os riscos psicossociais nas empresas?
A mensuração dos riscos psicossociais geralmente é realizada por meio de instrumentos estruturados de avaliação, como:
- Questionários organizacionais;
- Pesquisas de clima;
- Entrevistas com trabalhadores;
- Análise de indicadores organizacionais.
Embora a percepção individual tenha um componente subjetivo, a avaliação considera dados coletivos, analisados por:
- Setor;
- Função;
- Área;
- Nível hierárquico;
- Perfil demográfico.
Isso permite identificar padrões de risco dentro da organização.
A avaliação dos riscos deve considerar dois aspectos principais:
- Severidade do dano: avalia o nível de impacto que determinado fator pode gerar na saúde do trabalhador.
- Probabilidade de ocorrência: analisa a chance de aquele risco efetivamente gerar adoecimento ou prejuízo ocupacional.
Essas duas dimensões são cruzadas em matrizes de análise de risco, permitindo classificar a criticidade dos fatores identificados e orientar as ações de mitigação.
Como adequar a empresa às exigências normativas em saúde mental?
Na prática, a adequação à NR-01 envolve a construção de uma estratégia estruturada de gestão da saúde mental organizacional.
Essa estratégia pode ser organizada em três níveis principais:
Promoção da saúde mental
A promoção envolve a construção de uma cultura organizacional que valorize o bem-estar psicológico.
Algumas iniciativas incluem:
- Campanhas de conscientização;
- Workshops sobre saúde emocional;
- Ações de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho;
- Programas de qualidade de vida.
Essas ações contribuem para ambientes mais saudáveis e colaborativos.
Prevenção de riscos psicossociais
A prevenção envolve identificar e reduzir fatores que podem gerar adoecimento mental.
Entre as principais estratégias estão:
- Avaliações periódicas do ambiente organizacional;
- Programas de gestão do estresse;
- Treinamento de lideranças em saúde mental;
- Políticas claras contra assédio e violência psicológica.
A capacitação das lideranças é especialmente importante, pois gestores exercem papel central na construção do clima organizacional.
Acesso a tratamento especializado
A empresa também deve garantir que trabalhadores tenham acesso a suporte adequado quando necessário.
Isso pode incluir:
- Atendimento psicológico;
- Encaminhamento para psiquiatria;
- Programas de apoio ao empregado (EAP).
- Acompanhamento de casos críticos.

Indicadores que ajudam a monitorar a saúde mental no trabalho
Para avaliar a eficácia das ações implementadas, as empresas podem acompanhar indicadores organizacionais como:
- Absenteísmo e presenteísmo;
- Afastamentos por transtornos mentais;
- Sinistralidade em planos de saúde;
- Frequência de acidentes de trabalho.
Também é importante monitorar indicadores qualitativos, como:
- Pesquisas de clima organizacional;
- Níveis de estresse e engajamento;
- Feedback dos trabalhadores.
Esse monitoramento permite ajustes contínuos nas estratégias de prevenção.
Qual o papel do PGR na gestão dos riscos psicossociais?
A gestão dos riscos psicossociais deve estar formalmente registrada no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da empresa.
O PGR deve incluir:
- Identificação dos riscos psicossociais;
- Análise de severidade e probabilidade;
- Definição de medidas preventivas;
- Cronograma de ações;
- Responsáveis pela implementação.
Também é recomendável estabelecer metas mensuráveis no PGR, como:
- Reduzir afastamentos por estresse em determinado percentual;
- Diminuir incidentes de assédio;
- Melhorar indicadores de clima organizacional.
O programa deve ser monitorado e atualizado continuamente, garantindo sua efetividade.
Qual o prazo para adequação à NR-01?
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, a nova atualização da norma entrou em vigor em 25 de maio de 2025.
Inicialmente, a mudança terá caráter educativo, permitindo que as empresas adaptem seus processos.
A fiscalização efetiva passa a ocorrer a partir de 25 de maio de 2026.
Isso significa que as organizações têm um período de adaptação para estruturar seus processos de avaliação e gestão dos riscos psicossociais.
O que acontece se a empresa não se adequar?
O descumprimento das exigências pode gerar penalidades administrativas, conforme estabelecido pela Portaria MTE nº 66/2024.
Entre as possíveis consequências estão:
- Autuações em fiscalizações trabalhistas;
- Multas administrativas;
- Aumento do passivo trabalhista;
- Riscos de ações judiciais relacionadas à saúde mental.
Além disso, empresas que não gerenciam adequadamente esses riscos podem enfrentar impactos significativos na produtividade, retenção de talentos e reputação organizacional.
Por que investir na gestão da saúde mental nas empresas?
Mais do que uma exigência legal, a atenção à saúde mental representa uma oportunidade para as empresas repensarem suas práticas de gestão.
Organizações que investem na saúde mental tendem a apresentar:
- Maior engajamento dos colaboradores;
- Redução de afastamentos;
- Melhora no clima organizacional;
- Aumento da produtividade.
Assim, a gestão dos riscos psicossociais vai além da obrigação normativa, sendo também um diferencial estratégico para organizações sustentáveis e competitivas.
O futuro da saúde mental nas empresas começa agora
A atualização da NR-01 marca um avanço importante na forma como a saúde e segurança no trabalho são compreendidas no Brasil.
Ao incluir os riscos psicossociais no escopo do gerenciamento de riscos ocupacionais, a norma reconhece que o bem-estar mental é tão essencial quanto a proteção contra riscos físicos ou ambientais.
Nesse cenário, investir na gestão da saúde mental deixa de ser apenas uma ação reativa ou pontual e passa a integrar uma estratégia de desenvolvimento organizacional mais madura e responsável.
Com a proximidade do início da fiscalização, o momento ideal para começar essa jornada é agora: estruturando processos, capacitando lideranças e incorporando a saúde mental como parte essencial da cultura organizacional.
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