TEA: diagnóstico e principais desafios

Publicada 29/11/2022

Nos últimos anos, vimos um aumento no número de crianças diagnosticadas com o Transtorno Espectro Autista (TEA) e a divulgação de informações sobre o assunto na mídia. No entanto, este ainda é um tema que traz muitas dúvidas, tanto para os pais quanto para os profissionais de saúde, que enfrentam dificuldades para fechar o diagnóstico.

Diante disso, convidamos o especialista em desenvolvimento infantil e coordenador do curso “Autismo: avaliação diagnóstica e desafios contemporâneos” da Faculdade Unimed, Renato Santos Coelho, para tirar algumas dúvidas sobre o tema.

 

Após a pandemia, o TEA ficou muito divulgado. Por que o senhor acha que o tema ganhou tanta visibilidade?

Com o isolamento social, as crianças que têm o diagnóstico de TEA ou de atrasos importantes no desenvolvimento tiveram que parar os seus tratamentos. Com isso, os sintomas se intensificaram e as famílias tiveram dificuldades em lidar com essas mudanças em casa. Esse é um ponto que trouxe mais atenção para o tema na mídia.

Além disso, com a pandemia muitas crianças pequenas e lactentes ficaram isoladas, sem contato com outras pessoas e com menos estímulo por parte dos pais, que não puderam dar a elas a devida atenção. Então esses bebês, ainda muito jovens, ficaram em contanto intenso com “telas”: computadores, smartphones, tablets e televisão. Essas tecnologias foram usadas como uma maneira de tranquilizar e acalmá-las numa fase importante de desenvolvimento neurológico, que é o primeiro um ano e meio de vida. Consequentemente, o número de crianças com algum tipo de atraso global, pode ser confundido com o espectro autista porque os sintomas nessa fase são iguais ou semelhantes.

 

Por que é tão complicado fazer o diagnóstico do TEA?

Esse diagnóstico fica mais complicado na medida em que você começa a atender crianças pequenas com atraso global do desenvolvimento, nas quais os sintomas do espectro autista e de outras causas do atraso se misturam, deixando mais difícil a diferenciação.

O outro ponto que complica o diagnóstico é o fato de que não existe um marcador biológico. Ou seja, não temos um exame que possa nos auxiliar, como um exame de sangue ou de imagem como uma ressonância, uma tomografia, um eletro. O diagnóstico tem que ser baseado na observação do comportamento da criança e isso requer tempo. Avaliar este paciente no período de 5 ou 10 minutos de consulta é muito difícil e aumenta as chances de erro porque há apenas observação do sintoma e não todo o funcionamento da criança, o que exige muito mais tempo de contato com ela.

Também merece destaque o fato de que como tem muitos profissionais que atuam no tratamento das crianças dentro do espectro autista ou de atraso global, há muitas opiniões e muitas impressões de pessoas que não estão acostumadas a fazer o diagnóstico.

 

Existe algum exame que ajude nesse diagnóstico? Qual?

Como dito na resposta anterior, não existe um exame laboratorial ou de imagem que faça o diagnóstico. Porém, existem algumas avaliações, alguns instrumentos que foram desenvolvidos pela comunidade científica internacional nos últimos anos. São testes e instrumentos que são feitos para a triagem e diagnóstico, não são exames definitivos, mas auxiliam bastante na avaliação diagnóstica.

Os mais conhecidos, considerados padrão ouro para a avaliação e diagnóstico do TEA, são os testes ADOS e CARS 2, ambos são instrumentos de avaliação quantitativa para auxiliar em casos difíceis.

 

Quais profissionais estão aptos a fazer o diagnóstico do TEA?

O diagnóstico é uma função médica, então quem tem que fazer esse diagnóstico são os médicos. Dentro da medicina a especialidade responsável pela área da infância é a pediatria, mas dentro dessa área, o pediatra geral geralmente não tem muito treinamento nem muito conhecimento para fazer esse diagnóstico, então existem algumas subespecialidades, como a pediatria do desenvolvimento, que é onde eu atuo, mas no Brasil ainda não é reconhecida como uma subespecialidade. Também estão aptos para fazer o diagnóstico os especialistas em neuropediatria e a psiquiatria infantil.

 

 Quais são as terapias mais eficazes para o tratamento do TEA?

A partir do diagnóstico, o objetivo do tratamento é tentar fazer com que esse atraso global fique menos impactante, isto é, reduzir o gap entre a criança com o desenvolvimento típico e aquela que está com o desenvolvimento atípico, para que ela fique mais próxima do que é esperado para aquela idade.

Para o tratamento ser efetivo, ele deve começar por uma abordagem familiar, que ajude a família a lidar com o impacto do diagnóstico. Também é importante o acompanhamento com um fonoaudiólogo, pois uma grande parte, talvez a maioria das crianças dentro do espectro autista, tem algum déficit de comunicação, o que gera a necessidade de fazer uma terapia fonológica. Assim como existe também a necessidade de fazer terapias comportamentais para adaptar a criança em termos de funcionalidade das habilidades adequadas para a sua idade.

Agora, se você me perguntar qual é o tratamento que se mostra mais eficaz, não há nenhum estudo que compare as diferentes técnicas e que nos permita indicar qual é o melhor tratamento. Todos os métodos passam pela avaliação de evidência científica, mas comparativamente não há esse estudo.

 

Quais sinais os pais precisam ficar atentos e buscar um especialista?

De uma maneira geral, temos que focar na comunicação e na fala. A criança que ao longo do primeiro ano de vida não está fazendo comunicação gestual, como o apontar com o dedo, não faz expressões com o rosto de sim ou não e não atende ao chamado do nome, deve ser observada mais de perto, pois pode haver atraso na comunicação. Este é o sinal mais evidente.

A partir de um ano, a criança deve começar a emitir palavras e até um ano meio, ter um vocabulário já com duas, três ou quatro palavras e conseguir se comunicar de forma não verbal, apontando o dedo, por exemplo. A ausência desta comunicação é um sinal de alerta.

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A Faculdade Unimed oferta diversos conteúdos atualizados sobre os desafios do diagnóstico do TEA, como: cursos livres voltados para os profissionais de saúde; workshop para dirigentes e gestores; programa de formação de pediatras; consultoria técnica; pós-graduação e programa de avaliação de Rede para clínicas de atendimento TEA. Para saber mais, entre em contato conosco.




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