Falar sobre cuidados paliativos é falar sobre qualidade de vida, conforto e respeito às escolhas de cada pessoa diante de uma condição de saúde grave. É uma abordagem que amplia o olhar sobre o paciente e considera não apenas os sintomas físicos, mas também aspectos emocionais, sociais e espirituais.
Nesse contexto, a alimentação também precisa ser compreendida para além da oferta de nutrientes. Em determinadas situações, comer pode estar relacionado ao prazer, às memórias, à convivência com a família e à própria autonomia do paciente.
É justamente nesse ponto que a nutrição ganha uma dimensão importante dentro dos cuidados paliativos.
O que são cuidados paliativos?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos têm como objetivo melhorar a qualidade de vida de pessoas e seus familiares que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida. A abordagem busca prevenir e aliviar o sofrimento por meio da identificação e do tratamento de sintomas físicos, psicológicos, sociais e espirituais.
Um ponto importante é que cuidados paliativos não significam abandono do tratamento ou que não há mais o que fazer. Eles podem ser iniciados desde o diagnóstico e oferecidos simultaneamente a tratamentos destinados ao controle da doença ou ao prolongamento da vida.
No Brasil, a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), instituída pelo Ministério da Saúde em 2024, estabelece a oferta desses cuidados de forma integrada à Rede de Atenção à Saúde, o mais precocemente possível para as pessoas que tenham indicação. A política também reforça a importância da formação e da educação continuada dos profissionais de saúde.
Onde entra a nutrição?
A alimentação pode mudar significativamente ao longo de uma doença grave. Falta de apetite, náuseas, vômitos, boca seca, dificuldade para engolir, constipação, diarreia e alterações no paladar são alguns dos sintomas que podem interferir na ingestão alimentar e no bem-estar.
Por isso, o cuidado nutricional precisa acompanhar as necessidades de cada paciente.
O Ministério da Saúde destaca que a nutrição em cuidados paliativos pode contribuir para o controle de sintomas, a manutenção da hidratação e a preservação do estado nutricional, além de considerar o alimento também como fonte de prazer, conforto e interação social.
Isso significa que a conduta nutricional não deve ser baseada apenas em metas tradicionais, como ganho de peso ou cumprimento de uma determinada quantidade de calorias. É preciso avaliar o quadro clínico, os sintomas, a capacidade de alimentação, os objetivos do cuidado e, principalmente, o que faz sentido para aquela pessoa naquele momento.
Alimentação e qualidade de vida
Quando comer se torna difícil, a alimentação pode deixar de ser uma experiência prazerosa e passar a representar desconforto ou até ansiedade para o paciente e para a família.
Nesses casos, pequenas adaptações podem fazer diferença. Modificar a consistência dos alimentos, ajustar o volume e a frequência das refeições, escolher preparações de maior aceitação e respeitar preferências individuais são algumas possibilidades que podem ser avaliadas pela equipe.
A proposta não é estabelecer uma dieta igual para todos, mas encontrar estratégias que estejam de acordo com as necessidades e possibilidades de cada pessoa.
A própria abordagem dos cuidados paliativos coloca o paciente no centro das decisões, valorizando sua autonomia, seus valores e suas preferências. Esse princípio também se aplica à alimentação.
O papel do nutricionista nos cuidados paliativos
O nutricionista faz parte da equipe multiprofissional responsável pelo cuidado e pode atuar em diferentes momentos da assistência.
Entre suas atribuições estão a avaliação do estado nutricional, a identificação de fatores que dificultam a alimentação, o manejo de sintomas relacionados à alimentação e a definição de estratégias nutricionais individualizadas.
Também faz parte desse trabalho orientar familiares e cuidadores. Em muitas situações, eles podem ter dúvidas sobre quanto o paciente deve comer, quais alimentos oferecer ou como agir diante da perda de apetite.
A atuação do nutricionista ajuda a transformar essas dúvidas em decisões baseadas na avaliação clínica e nos objetivos definidos para o cuidado.
A Política Nacional de Cuidados Paliativos também prevê equipes multiprofissionais e inclui a nutrição entre as categorias que podem compor as equipes de apoio e assistência em cuidados paliativos.
Quando a alimentação diminui
A redução do apetite pode acontecer durante a evolução de doenças graves e precisa ser compreendida dentro do contexto clínico de cada paciente.
É comum que familiares se preocupem diante da diminuição da alimentação e tentem estimular o paciente a comer a qualquer custo. No entanto, insistir na alimentação sem considerar a condição clínica pode aumentar o desconforto.
Nessas situações, a equipe de saúde deve avaliar o que está causando a dificuldade para se alimentar e quais estratégias podem trazer benefícios reais para aquela pessoa.
Em pacientes com doença avançada, especialmente próximos ao fim da vida, os objetivos do cuidado nutricional podem mudar. A avaliação dos benefícios e dos riscos das intervenções nutricionais deve ser individualizada, considerando a condição clínica e os objetivos estabelecidos para o paciente. Diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) também ressaltam a necessidade de equilibrar benefícios e riscos das intervenções nutricionais em situações de doença avançada.
O significado da alimentação além dos nutrientes
A comida também carrega significados que não aparecem em uma tabela nutricional.
Uma receita preparada pela família, um alimento preferido ou uma refeição compartilhada podem representar afeto, identidade, memória e pertencimento. Por isso, olhar para a alimentação dentro dos cuidados paliativos também significa compreender a relação que aquela pessoa tem com o alimento.
O cuidado nutricional pode, quando possível, preservar esses aspectos e adaptar a alimentação às condições do paciente
É uma mudança de perspectiva: em vez de perguntar apenas “o que o paciente precisa comer?”, é importante também perguntar “o que podemos fazer para que esse momento seja mais confortável e significativo para ele?”.
Um trabalho que depende da equipe
Os cuidados paliativos não são responsabilidade de uma única profissão. A proposta é justamente integrar diferentes áreas para atender às necessidades da pessoa de maneira ampla.
Médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais podem contribuir para o planejamento e a continuidade do cuidado.
Essa atuação integrada é um dos pilares dos cuidados paliativos e permite que decisões sejam tomadas considerando diferentes dimensões da experiência do paciente e de sua família.

A importância da formação em cuidados paliativos
A ampliação dos cuidados paliativos no Brasil também aumenta a necessidade de profissionais preparados para atuar nessa área.
A Política Nacional de Cuidados Paliativos estabelece, entre seus objetivos, o estímulo à formação e à educação continuada dos profissionais de saúde.
Mais do que conhecer protocolos, atuar em cuidados paliativos exige desenvolver habilidades para lidar com sintomas, comunicação, tomada de decisões, trabalho em equipe e aspectos relacionados à autonomia e à qualidade de vida.
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